Mariele e “a maldade de gente boa”, por Pedro Camilo



Uma categoria de ser humano que tem a especial capacidade de se tornar insensível a uma grande parcela das misérias que se abatem sobre a sociedade.

“Gente boa”, “gente honesta”, “homens e mulheres de bem” – assim se define uma categoria de ser humano que tem a especial capacidade de se tornar insensível a uma grande parcela das misérias que se abatem sobre a sociedade, sobretudo as que nem de longe podem atingi-lo.

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É essa “gente boa” que diz que racismo é vitimismo exagerado de um bando de negros que insiste em negar o fim da escravidão; que mulheres só sabem reclamar, ao invés de compensar suas “fragilidades” com mais trabalho para “se igualarem” aos homens; que “desceu dos tamancos” quando as leis trabalhistas conferiram maiores direitos a empregados domésticos, afetando seus seculares privilégios; que comemoraram todas as restrições e diminuição de direitos, aquelas que foram injustas, que a reforma trabalhista de 2017 implantou no Direito do Trabalho pátrio; que defende, mesmo sob vara, que corrupção é um problema partidário, e não sistêmico, e que as agruras do Brasil se devem a uma década de espoliação, e não a quinhentos anos de “tenebrosas transações”; que fala em “orgulho hétero”, em “perseguição ao homem branco”, em “ideologia de gênero”, em “violação do sagrado instituto familiar” e em meritocracia; que ignora que a história dos poderes constituídos é uma história de “abuso de poder”, que tem respondido por injustiças profundas e pelo caos em que surpreendemos setores como educação, saúde e segurança; que defende, dentre outros, que seres humanos “justos e honestos” – a gente boa! – tem todo direito, sim, de exterminar os seres humanos “injustos e desonestos” – a gente má! –, como se fosse possível reduzir a vida a um maniqueísmo infantil e bisonho.

Essa “gente boa”, espalhada por todos os cantos, tem festejado a morte da vereadora Marielle de muitos modos, sustentando argumentos sofríveis, do tipo “ontem morreu uma médica branca num assalto e o país não parou”, “Freixo, vai defender os bandidos que mataram sua amiga”, “isso é o que dá se meter com gente ruim”, “quem procura, acha”, “defendia bandido e foi morta por eles”.

Desrespeitosa, cega por opção, incapaz de um mínimo de empatia, essa “gente boa”, grande parte da qual se diz cristã (sic), que diz defender “a vida, a moral e os bons costumes”, não percebe o recado eloquente e acintoso que a execução de uma ativista social, negra, de origem pobre, uma das mais votadas vereadoras da terceira economia do País, que está sob intervenção militar e sob os olhares atentos de todo o mundo – essa “gene boa”, repito, não percebe o recado que uma execução dessas representa e que o Capitão/Coronel Nascimento, aquele do “Tropa de Elite”, ainda hoje reverbera: “O sistema é foda!”, e ai daquele que ouse ultrapassar os curtos limites por ele fixados…

Marielle foi morta não pelos “bandidos que defendia”, mas pelos “bandidos que combatia”. Ela foi vítima de um sistema corrompido, consumido pela corrupção, que tem bandidos vestidos de heróis (não todos, por óbvio, mas uma parcela infelizmente significativa e virulenta) e que, sem qualquer escrúpulo, é capaz de tudo para que “tudo continue como está”. Ela foi morta por aqueles que, colocados do “lado bom” da história, se dizem defensores dos “humanos direitos” em detrimento dos “direitos dos manos”. Ela foi morta por aqueles que praticam todo tipo de bandidagem sob o pretexto de proteger “a gente boa” dos bandidos – quando eles também são bandidos altamente perigosos!

Essa “gente boa”, na verdade, é o símbolo de um “ser humano sofrível”, como diz meu amigo, Prof. Urbano Félix. Uma gente cheia de ódio, que se ressente da extinção de todos os privilégios que já perdeu, que não deseja ver a ascensão de quem sempre foi ralé, que acredita num determinismo social, que acha que “direitos humanos” é um cara barbudo ou uma mulher cabeluda que quer proteger os maus em detrimento dos bons.

“Deus me defenda […] da maldade de gente boa”, já cantou Chico Cesár. Que me defenda, sim, dessa maldade que se traveste de honestidade e indignação e que, no fundo, apenas revela o quanto são sofríveis os valores e os ideais desses seres que insistem em serem chamados de humanos – os tais “humanos direitos”…

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