Inovar para quê?



Por Rosa Alegria

Em um mundo em transição e precisando de socorro é preciso redirecionar a inovação para que ela conviva em harmonia com a natureza e com os excluídos da economia

Inovação é a  palavra das mais  recorrentes no repertório de quem lê sobre administração de qualquer coisa.

De tão louvada, a inovação  passou a ser o mantra  de quem quer fazer a diferença seja lá na economia, na educação, na política e em qualquer outra área que tenha espaço para fazer a diferença.

Até pouco tempo atrás era usada para adjetivar qualquer mudança que impactasse a criação de um produto, de uma tecnologia, de uma embalagem,  de um serviço, de uma propaganda.

No século 21 enfrentamos uma série de desafios alarmantes bem mais amplos do que atender necessidades de mercado ou até criar novos  mercados.

Nos deparamos com escassez da água, aquecimento global, disparidades sociais, crises simultâneas de vários ordens e não podemos nos satisfazer com inovação mercadológica apenas.

A capacidade de inovar passa a ser um recurso essencial para tentarmos sair dessas circunstâncias adversas à nossa sobrevivência.

Nesse mundo em transição e precisando de socorro é preciso redirecionar a inovação para que ela conviva em harmonia com a natureza e com os excluídos da economia. Está na hora de perguntar: inovação para quê?

A inovação tal qual tinha sido concebida até então, a de incremento ou ruptura de conceitos de bens e serviços não vale mais.

Inovar para gerar bens de consumo que depois viram descarte, lixo eletrônico que se amontoa pelos aterros inférteis é coisa do passado.

Olhando para o futuro,  quem quiser inovar tem que trazer bem estar e segurança para o maior número de pessoas, em sintonia com a sustentabilidade do planeta, durabilidade garantida, simplicidade a toda prova, tem que ser inovação com foco no longo prazo, para fazer durar, otimizar recursos, preservar e tem que ter senso de justiça para incluir.

Mudanças de gestão, pensamento e aplicação são necessárias e os pequenos negócios em especial oferecem agilidade maior que os grandes para se movimentarem na direção das mudanças que na cadeia de valor pequenos fornecedores possam influenciar as corporações.

O estudo “Tendências de sustentabilidade para os pequenos negócios” que realizei em  2014 por encomenda do Centro Sebrae de Sustentabilidade traz evidências e exemplos nacionais e internacionais sobre como isso é possível.

O estudo está disponivel online gratuitamente aqui.

Um pouco dessas tendências compartilho aqui com os leitores:

• Crescimento qualitativo: Uma novo tipo de crescimento passa a nortear a lógica empresarial: produzir conservando e conservando para produzir. O crescimento qualitativo (da conservação) impõe-se sobre a lógica do crescimento quantitativo (da extração).

• Sustentabilidade em cadeia: grandes empresas estimulam suas cadeias de fornecimento a se integrarem nesse esforço.  Bradesco, Suzano, Braskem, Petrobrás, entre outras, têm adotado programas de capacitação e conscientização junto aos seus fornecedores.

• Recompensas climáticas: Apenas 38% traçam metas de redução de emissões de CO2, contra 92% das companhias compradoras. Reduzir custos com olhar no clima é inovar e ser mais rentável. segundo últimos dados levantados pelo CDP, 29% dos pequenos negócios que diminuíram suas emissões economizaram juntos cerca de R$ 13,7 bilhões em 2012.

• Ecoeficiência: Uma empresa ecoeficiente é aquela que reduz os impactos ambientais nos sistemas de produção através de práticas de redução e otimização.

• Talentos verdes: profissionais especializados em meio ambiente e sustentabilidade têm sido cada vez mais valorizados  no mercado de trabalho. Por que não contrata-los?

• A era do acesso: O capital físico, fator econômico mais importante do passado, está sendo superado pelo capital intangível. A posse de bens tem dado lugar ao acesso. Muitos exemplos dessa economia compartilhada afloram a cada momento, como os hoje gigantes AirBnb e Uber.

• Negócios sociais: conhecidos por negócios 2,5 (dois e meio), aqueles que estão entre o segundo e o terceiro setor. Estudo realizado 3 anos atrás indica que 64% dos negócios sociais eram microempresas e 10% pequenas empresas.

• Licença para operar: Obter licenciamento ambiental e apresentar relatórios de sustentabilidade periodicamente e divulgá-los pode ser condição de  mercado para os pequenos negócios obterem credibilidade e a preferência dos consumidores

• A feminização da economia: O empreendedorismo está cada vez mais feminino com crescente percentual de mulheres empreendendo e atraindo atenção de investidores e governos. Grandes mudanças no cenário empreendedor brasileiro devem-se ao crescimento no número de mulheres empreendedoras, que hoje são 51% do contingente brasileiro (Global Entrepreneurship Monitor).

• Economia colaborativa: Os desafios impostos pela economia globalizada e pelas novas tecnologias têm desconstruído os princípios mais ortodoxos da competitividade, fazendo emergir uma nova lógica econômica baseada em relações ganha-ganha. Centrais de negocios, co-branding, o  movimento dos prosumidores (makers) são alguns dos exemplos dessa nova era.

• Sustentabilidade interior: A pressão da falta de equilíbrio da vida  e do stress diários cria a necessidade de um  resgate do bem-estar interior e da saúde através de produtos e serviços. Fenômeno que está presente na dimensão pessoal, psicológica e até espiritual, gerando novos negócios como, massagens a domicílio, spas urbanos, cuidado para os mais idosos, as academias de ginástica, os espaços de terapia holística, restaurantes com alimentos orgânicos.

Precisamos rever o que entendemos por inovação porque o que antes fazia sentido hoje não faz mais. É só olhar para os milhões de aparelhos celulares que viram montanhas de lixo crescentes.

Inovar não pode ser mais  apenas surpreender e encantar com novidades descartáveis. Deve ser não só mudança de produtos e serviços  como também mudança de atitude numa relação saudável entre quem vende e quem compra.

Via: DC

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