Medicina Fetal no Brasil, infelizmente, é para poucos, diz Dr. Jony R. Barbosa



” Hoje, o feto deve ser encarado como um paciente à parte e por isso o surgimento da medicina fetal. “, Dr. Jony

Ultrassonografia é um meio, não é a medicina fetal em si, nos explica Dr. Jony R. Barbosa, fundador e diretor da Fetalcenter Medicina fetal e ultrassonografia e da Fetalcenter Centro Médico, ambos em Goiânia, GO.

“Com o surgimento dos aparelhos, abre-se a possibilidade do diagnóstico de doenças e malformações fetais inimagináveis em outros tempos. E com os diagnósticos surge também a possibilidade de novos tratamentos e intervenções cirúrgicas para o tratamento do feto ainda dentro do útero”, explica.

Médico com especialização em videolaparoscopia, videohisteroscopia e mastologia, além de especialização em Ultrassonografia (2001 / Hospital Pérola Byington – São Paulo, SP), Dr. Jony está preocupado com a divulgação de falsas notícias que se espalham pelas redes sociais, principalmente na área de vacinação. “Isso deveria ser criminalizado.”

Em relação à carreira na medicina e aos novos profissionais, Dr. Jony vai direto ao ponto: demonstra certa frustração. “Hoje, temos a sensação de que a dedicação dos novos profissionais é bem menor, o descaso pelo paciente começa já no tempo da faculdade.”

Nesta entrevista exclusiva para revista Nice, Dr. Jony fala sobre saúde e outros assuntos relevantes e também sobre o atendimento público em medicina fetal: “Infelizmente, isso ainda é para poucos; geralmente, os serviços públicos em sua maioria não oferecem o serviço ou, se tem, não oferecem em sua plenitude.”

Abaixo, acompanhe a íntegra da entrevista:

– Como está o desenvolvimento da medicina fetal no mundo, no Brasil e no estado de Goiás? No tocante a aspectos como pesquisa e atendimento médico.

A medicina fetal avançou muito nas últimas décadas, com o surgimento de aparelhos de ultrassonografia mais modernos e estudos mais aprofundados e consistentes. Com isso, surge a possibilidade do diagnóstico de doenças e malformações fetais inimagináveis em outros tempos.

E com os diagnósticos surge também a possibilidade de novos tratamentos e intervenções cirúrgicas para o tratamento do feto ainda dentro do útero.

Hoje, o feto deve ser encarado como um paciente à parte e por isso o surgimento da medicina fetal. Não somente o obstetra, mas também o especialista em medicina fetal, também denominado de fetólogo, atua em benefício do binômio materno-fetal, proporcionando maior segurança no diagnóstico, acompanhamento e tratamento das gestantes.

No mundo, existem grandes centros especializados em pesquisas em medicina fetal; os principais estão situados em Londres e em Barcelona.

Porém, nesses países o diagnóstico muitas vezes de alguma malformação genética, cromossômica ou autossômica, causa a interrupção da gravidez, opção permitida pela legislação local. No Brasil, muito se avançou nas intervenções, sejam elas cirúrgicas ou tratamentos especializados, no intuito de melhorar as condições de sobrevida do feto, principalmente devido à nossa legislação.

Mas, infelizmente, isso ainda é para poucos; geralmente, os serviços públicos em sua maioria não oferecem o serviço ou se tem não oferecem em sua plenitude.

Em Goiás, ainda estamos muito aquém dos serviços de medicina fetal dos grandes centros. Com poucos especialistas e muitas vezes sem condições adequadas de realizar os tratamentos propostos, nos vemos obrigados e referenciar as gestantes para outras cidades.

Muitas vezes, o especialista em medicina fetal é visto pelos próprios colegas como somente um ultrassonografista e não como alguém que pode atuar conjuntamente com o obstetra na definição do acompanhamento de condutas da gestação.

– Como está a procura de especialistas em medicina fetal na região de Goiânia e quais são as demandas de atendimento?

A procura por especialistas em medicina fetal na nossa região, na maioria das vezes, se limita à realização de exames morfológicos e em gestantes de alto risco. Apesar das malformações e patologias serem mais frequentes nas gestações de baixo risco, devido a essas existirem em maiores número.

– Quais a vacinas importantes para o período gestacional?

Hoje em dia, temos a sensação de existir um movimento em desfavor das vacinas, com isso temos vistos doenças já quase erradicadas terem sua incidência aumentada e acometerem pacientes em regiões em que antes não existiam. Na gestação, isso não é diferente. Temos como principais vacinas, que devem ser estimuladas para uso na gestação, a DTPa, contra tétano, difteria e coqueluche, a vacina contra hepatite B e as vacinas contra influenza, que protege contra gripe e H1N1.

Outras vacinas devem ser utilizadas fora do período gestacional, tais como rubéola e febre amarela.

Mas não devemos esquecer também de outras doenças, que mesmo sem vacinas devem ser investigadas e tratadas durante a gestação para diminuir a morbimortalidade dos fetos e recém nascidos, tais como toxoplasmose, aids (HIV) e sífilis, que vem tendo um aumento de casos assustador em gestantes e bebês.

– Já que o senhor tocou no assunto, como vê o movimento equivocado antivacina no mundo?

Vejo como a divulgação de falsas notícias que se espalham pelas redes sociais e encontram seguidores desinformados que acabam por seguir, acreditar e redistribuir falsas informações. Isso deveria ser criminalizado.

– Com muitas termas na região, há risco de aborto espontâneo nos
banhos termais? Pode comentar?

É muito comum essa dúvida nos consultórios, apesar de raríssimo e de difícil comprovação os casos de abortamentos e malformações causados por banhos de imersão em águas termais ou mesmo em banheiras e piscinas com água muito quente. Os exageros devem ser contidos; não vejo a necessidade de uma gestante ficar quase o dia todo em um clube dentro de uma piscina com água quente.

Mesmo sem causar abortamentos, esses banhos podem levar a hipotensão, mal estar e até mesmo um maior relaxamento do colo em mulheres predispostas, levando a partos prematuros. Então, fica a dica: na dúvida, melhor não arriscar!

– Uma pergunta pessoal: como o senhor vê o amor à medicina nas novas gerações de médicos. Ocorreu alguma mudança com esse sentimento ou não? Comente.

Acho que vivenciei os últimos anos de formação mais humanitária e personalizada nas faculdades de medicina. Éramos cobrados pelos nossos mestres a conversar, examinar clinicamente, tecer diagnósticos sindrômico, etiológico e diferencial sem qualquer recurso tecnológico. Sabíamos que os exames complementares eram secundários, porém não menos importantes, e serviam para confirmação diagnóstica e seguimento.

Houve época mais romântica na carreira, mas acredito que na minha formação ainda podemos vivenciar esse verdadeiro amor pela medicina e pelo cuidado com o paciente.

Hoje, temos a sensação que a dedicação dos novos profissionais é bem menor, o descaso pelo paciente começa já no tempo da faculdade, os recursos tecnológicos tomaram frente à boa anamnese e exames físicos bem feitos, além de uma especialização e subespecialização precoce.

Já temos alunos que não se dedicam a determinada área porque já escolheram onde vão atuar. Não se interessam pelos plantões, vão embora mais cedo, se preocupam mais com a carga horária do que com o aprendizado. E ficam cabulando aula para participarem de cursos de formação para provas de residência médica ao invés de atuarem e aprenderem medicina dentro dos hospitais.

Há pouco tempo surgiu notícia de que médicos recém formados não sabiam medir a pressão arterial de pacientes. O que seria um procedimento básico a ser aprendido por quem fica dentro do hospital.

Sinto essa grande mudança, penso ser maléfica aos profissionais e aos pacientes.

Entrevista a Manoel Fernandes Neto

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