Não vou falar de política, vou falar de família, por Camila Oliveira



[ Camila Oliveira ]

No nosso dia a dia, estamos tão focados nos números, nas porcentagens, nos dados e nos índices que esquecemos que eles são apenas representações numéricas de nossas famílias.

Quando meus pais engravidaram, aos 23, nenhum dos dois tinha emprego fixo. Junto com tantas consequências que vieram desse começo, eu quero destacar uma: Fui criada pertinho dos meus avós. “Criado por vó” muitas vezes é expressão pejorativa, mas para mim, é expressão de afeto, carinho e amorosidade. Conviver com minhas duas avós na primeira infância põe não só suas maneiras em mim, coloca não só seus hábitos em minhas primeiras lembranças, como as coloca na minha identidade como indivíduos para eu admirar e proteger. Ter sido criada por vó foi ouvir histórias e músicas, não só histórias inventadas e músicas da minha infância, mas as histórias delas, as músicas das épocas delas, a vida delas cuja existência permitiu a minha. É cotidiano pensar nelas a cada coisinha que faço, algumas cujo valor até esquecemos, escolher o que estudar, escolher estudar, poder ter estudado não quatro, mas mais de 20 anos no ensino regular, escolher onde trabalhar, escolher trabalhar, dar opinião, ter opinião, botar o pé num avião sozinha e fazer uma viagem planejada totalmente por mim mesma. É impossível não pensar nelas.

Minha avó materna estudou só até a quarta série, mas mesmo assim ela contava do tempo que “dava aula lá na fazenda dos japoneses”. Minha avó paterna foi só até a quarta série quando criança, mas foi ela quem me ensinou a ler e escrever, porque o Pré na Escola Municipal não ensinava, não.

Quando tinham a minha idade, 28 anos, minhas avós tinham vidas bem distintas da minha. Para ser mais precisa, eu hoje completo 10306 dias. Quando minha avó materna completava 10306 dias de vida, ela já estava casada há 6 anos e seu 3º filho tinha nascido 2 dias antes. Quando minha avó paterna completava 10306 dias de vida, ela já estava casada há 5 anos e seu 4º filho tinha nascido no dia anterior.

Não é só a maternidade que nos distingue, não é só o fato de suas identidades transitarem entre filha, esposa e mãe, a vida delas era muito mais difícil que a minha, socialmente, economicamente, politicamente.

Minha avó paterna nasceu em Feira de Santana, Bahia, teve cinco irmãos que conheci e, se não me falha a memória, mais dois que morreram cedo. Minha avó materna nasceu em Franca, São Paulo, teve quatro irmãos que conheci e, também se não me falha a memória, mais dois que morreram cedo. Eu não posso imaginar a dor de perder um irmão. Nem a dor que elas encaravam nos rostos de suas mães que perderam um filho.

Elas não partiram diretamente de suas terras natais para a minha terra natal, onde muitos anos depois meus pais engravidariam. Com suas famílias, elas se mudariam de cidade mais vezes que gostariam com o objetivo simples de viver melhor. Viram suas mães criando seus irmãos da melhor forma que podiam e da mesma forma fariam com seus filhos, criando da melhor forma que podiam. E por isso, vejo hoje minhas avós naquelas mulheres que vivem da melhor forma que podem, com suas histórias e músicas, e naquelas mães que tentam hoje criar seus filhos da melhor forma que podem, cantando como podem suas histórias e músicas.

Eu não vou falar de política, vou falar de família.

Porque quando eu vejo alguém falando de famílias como a minha, famílias como as que minhas avós formaram, famílias como aquelas que formaram minhas avós, famílias que vieram de outra cidade, famílias que vieram de outro estado, famílias que vieram de outra região, famílias multiraciais, famílias numerosas, com filhos escadinhas, com mães e pais que não chegaram ao ensino médio, mas que tentam chegar ao fim do mês, famílias chefiadas por sindicalistas, famílias chefiadas por pedreiros, quando falam dessas famílias, estão falando da minha família. Eu não preciso dizer o que falam da minha família, você sabe.

No nosso dia a dia, estamos tão focados nos números, nas porcentagens, nos dados e nos índices que esquecemos que eles são apenas representações numéricas de nossas famílias.

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