O Planeta Rua segundo Rodrigo Melleiro



Por Manoel Fernandes Neto, editor da Revista Nice

Ele enxerga a rua em preto e branco. Sombras, luzes, expressões, pessoas, seres. Personagens em ebulição; caminhantes e jornadas; sorrisos e disfarces.

Ele é um “viciado” em (re)construir a realidade, baseado no cotidiano real das pessoas. Pode ser um momento decisivo ou incisivo, um retrato ou algo que brote das sombras, desde que não falte o seu olhar curioso e insistente. “Como dizia Bresson, a fotografia de destaque é saber colocar na mesma direção o olho, o cérebro e o coração”, afirma Rodrigo Melleiro, este rioclarense que adotou Florianópolis para morar, mas também como ponto de partida para o mundo: Marrocos, Cuba, Colômbia, Egito, não importa a direção quando o sentido é trazer para todos a imortalização que nos toca, nos emociona.

Graduado em Desenho Industrial pela Universidade Norte do Paraná, em Londrina, e com Pós-Graduação em Fotografia Digital na Escola Panamericana de Arte e Design de São Paulo, Rodrigo Melleiro vive um momento especial: com o lançamento de novos projetos na internet – site e loja virtual –, quer levar sua obra a lugares cada vez mais distantes, em uma sala de estar ou em um ambiente de trabalho, a não-localidade da arte fotográfica advinda das ruas do planeta ou da aldeia. “Você deve dar uma volta pelo seu bairro e conseguir uma fotografia incrível. Não é o local, nem o equipamento”, revela Rodrigo.

Com um trabalho autoral em que procura valorizar a composição da imagem com o uso de linhas, formas e sombras, mescla arte e jornalismo, não dissociando as duas escolas. “Eu acho que não existem limites entre esses dois caminhos. Uma composição bem feita, com uma luz incrível, acaba por deixar a notícia mais atraente e, muitas vezes, passa a ser vista como mais do que uma imagem jornalística, como arte”, diz.

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Carol e Rodrigo: No mundo da Rua

No preto e branco ele responde com paciência à insistente pergunta do motivo da ausência de cor: “Valorizo elementos na composição, como luz, sombra, linhas, formas, momento decisivo que, se agregados à cor, talvez não tenham tanto impacto quanto eu gostaria.”

Nesta entrevista exclusiva, Rodrigo fala um pouco mais do mundo que vê pelas suas lentes, um mundo que está além da compreensão, porque deve ser descoberto com os sentimentos. Ou como ele próprio diz: “O legal da fotografia de rua é isso, você sai e nunca sabe o que vai encontrar pela frente.”

Nice – Após tantas viagens, exposições e trabalhos variados como você analisa sua carreira?

Rodrigo Melleiro – A Fotografia para mim não é uma carreira; é lazer, é vício, é a minha maneira de me expressar. Acabou por virar trabalho, ou “carreira”, como você diz, mas é anterior a isso; e ocupa um espaço bem maior na minha vida.

Desde que comecei a fotografar, já são 15 anos de fotografia digital e 10 anos de fotografia de rua. Cobri shows, espetáculos, eventos, pautas para revistas.

Apesar de eu ter rodado bastante por aí fotografando e expondo meus trabalhos, creio que esta carreira só está começando e tenho certeza que há muitos desafios, tropeços e coisas bacanas ainda por vir.

Como você vê a fotografia como expressão artística em um época de abuso e banalização da imagem com o mundo conectado nas redes?

Acho que hoje a Fotografia vive um ápice como expressão artística. Nunca se vendeu tanto a Fotografia. Todos os dias centenas de milhares de fotografias são expostas nas redes sociais, entre elas muita coisa boa.

Há alguns anos essa banalização me incomodava, porém, com o amadurecimento profissional, vi que também serve para “separar o joio do trigo”. Hoje tenho acesso ao trabalho de diversos fotógrafos e com isso, novas referências.

Chama atenção algumas fotos suas, que revela determinado momento. “Momentos decisivos”; como acontece isto? Você busca, fica esperando? Ou surge? Comente.

Essa expressão foi imortalizada pelo fotografo francês Henri Cartier Bresson, há muito tempo. O momento decisivo pode ser premeditado, ou seja, eu posso visualizar uma cena antecipadamente, e ficar aguardando até que pinte a oportunidade do click (Foto 1); ou, ele pode simplesmente acontecer (Foto 2). É aí que entra a “tal da sorte”. Enfim, você precisa também de sorte para buscar o momento decisivo, seja ele premeditado ou não; mas a hora que ela aparece, você precisa saber o que fazer. Ou seja, a sorte é importante para o momento decisivo, e a técnica é fundamental.

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Foto 1: “Ficar aguardando até que pinte a oportunidade do click”
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Foto2: “Ele pode simplesmente acontecer”

Uma foto de destaque acontece independente do local geográfico onde está o fotógrafo?

Com certeza. Claro que existem lugares que por si só facilitam, e muitas vezes inspiram fotógrafos em todo o mundo (Foto 3). Mas nada impede você de dar uma volta pelo seu bairro e conseguir uma fotografia incrível (Foto 4) . E daí, não é o local, nem o equipamento, mas como dizia Bresson, é saber colocar na mesma direção, o olho o cérebro e o coração.

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Foto 3: No mundo
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Foto 4: No bairro

Quais as influências recebidas na sua formação profissional? Outros fotógrafos? Escritores? Artistas plásticos?

Na fotografia de rua, obviamente, alguns fotógrafos do passados são grande referência, como Bresson, Cappa, Doisneau, Ronis. Os contemporâneos, Evandro Teixeira e Sebastião Salgado, e o fotógrafo português Rui Palha, que é minha maior inspiração. Em relação à fotografia de música, gosto do Bob Gruen e Glen Friedman.
Saindo um pouco da fotografia, o designer russo Aleksander Rodchenko, o cineasta Stanley Kubrick, os cartunistas Joe Sacco e Guy Deslile e a pintora Frida Kahlo.

 O melhor retrato é o de pose ou o espontâneo, como funciona isso com  você?

Tem uma frase do Oscar Wilde que diz que o “natural também é uma pose”.
Pra mim, o natural – ou espontâneo – é mais bem quisto. Posar não tem a ver comigo, nem com o meu trabalho, não combina com fotografia de rua, diferente do surpreender­ que é sempre bem-vindo. Seja positivo, como um sorriso (Foto 5), ou negativo como um gesto obsceno ou de repulsa (Foto 6).

O legal da fotografia de rua é isso: você sai e nunca sabe o que vai encontrar pela frente.

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Foto 5: um sorriso
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Foto6: Um gesto de repulsa

Fotojornalismo e foto artística, na sua opinião existem limites entre esses dois caminhos? Comente.

Eu acho que não existem limites entre esses dois caminhos. O fotojornalista tem como função noticiar, ele não está ali para fazer arte, mas para informar, denunciar fazendo uso da imagem. Obviamente, uma composição bem feita, uma luz incrível, etc, acaba por deixar a notícia mais atraente e, muitas vezes, passa a ser vista como mais do que uma imagem jornalística, como arte.

Uma pergunta que não quer calar, quase um clichê: por que Preto e Branco?

O colorido distrai. Eu gosto de dizer que vejo em PB. Eu já fotografo em PB. Não tenho dúvidas se aquele click vai ser colorido ou não. A cor é algo a mais para eu processar na hora de fotografar.

Eu abro mão de fotografar com ela, pois valorizo elementos na composição, como luz, sombra, linhas, formas, momento decisivo que, se agregados à cor, talvez não tenham tanto impacto quanto eu gostaria.

7

Rodrigo, sabemos que cada registro da foto de rua é especial, mas houve algum momento que marcou muito na tua lembrança?

Eu me lembro não de um registro, mas de um momento de tensão que ocorreu em Cairo, no Egito, em 2013, durante a Primavera Árabe. Eu estava com a Carol, minha esposa, fotografando em plena Tahrir Square (https://pt.wikipedia.org/wiki/Praça_Tahrir), quando um homem veio na minha direção e colocou a mão na lente. Ele gritava em árabe e, rapidamente um grupo grande se juntou, apontavam e esbravejavam comigo. A cena toda durou pouco mais de um minuto, mas foi bastante intensa.

Apesar do momento de trégua que o país vivia naquele mês, o nível de tensão era muito alto, portanto os clicks estrangeiros não era bem-vindos naquele local. Foi uma situação bastante complicada, principalmente por que eu não estava sozinho. Ao final, pedimos desculpas e saímos de lá rapidamente.

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