Pessoas que só queriam ser felizes, por Celso Lima



Vladimir Lagrange busca a manifestação dos mínimos desejos e necessidades humanas na vida soviética dos anos 1960 aos 1980

Chego em casa impressionadíssimo com talento, beleza e um olhar tão atento, detalhando para nós um mundo muito distante no tempo e na geografia na fotografia de Vladimir Lagrange em sua exposição “Assim Vivíamos…”, cuja abertura que estive presente no dia 25 de Julho e que me emocionou muito, profundamente, e quem acompanha minhas postagens entende o motivo.

Vladimir Lagrange nos revela o que ele próprio intitula de “país fantasma”, mas vivo, tão vivo: a União Soviética pós-stalinista, um mito demonizante da Guerra Fria, que para nós no Ocidente sempre representou sombras, opressão e tristeza.

Os registros do cotidiano dos soviéticos por esse homem, que começou como fotojornalista para a agencia TASS aos 20 anos de idade, são recortes de verões, invernos, namoros, diversão, abandono, infâncias, alegrias pueris e tristezas avassaladoras, como qualquer mundo humano, mas que obviamente refletem a realidade de uma estrutura social distinta da nossa, mas na qual a vida vicejou sem empecilhos.

Discípulo de Henri Cartier-Bresson, o moscovita Vladimir Lagrange busca a manifestação dos mínimos desejos e necessidades humanas na vida soviética dos anos 1960 aos 1980, revelando o máximo no “momento decisivo”, o clic perfeito.

Lagrange está sempre a serviço do homem tanto na ação quanto na contemplação, registrando em preto e branco vidas em nada cinzas. Fiquei comovido com o calor naquelas salas, vi pessoas com olhares estupefatos diante de um mundo que imaginavam tão diferente. É uma experiência, e me lembrou muito o trabalho produzido por Robert Capa e John Steinbeck quando visitaram a URSS em 1947, resultando no livro “Diário Russo”, que já comentei e  que mostra um mundo vivo, pessoas que só queriam ser felizes, como nós, e no entanto eles mesmos perguntavam insistentemente aos dois: “por que nos odeiam tanto?”.

Pois é, a história precisa se ocupar de desmistificar, de romper com as mentiras e confirmar as verdades de uma injustiça cometida contra todo um povo. Um começo é visitando a exposição de Vladimir Lagrange: “Assim Vivíamos…”, com curadoria de Luiz Gustavo Carvalho, na “Caixa Cultural São Paulo”, Praça da Sé, 111, centro de São Paulo, de 25/07 até 20/09. Imperdível!

Na Caixa também estão as exposições de Alair Gomes “Percursos”, até 12/09 e “Patrimônio Imaterial Brasileiro”, de 25/07 a 20/09, trazendo aspectos folks das raízes culturais brasileiras, infelizmente ainda presa a certos estereótipos. Nas fotos, a vida soviética em instantâneos precisos, no “momento decisivo”.

 

Publicado originalmente:
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=1456621817995633&id=100009434852662&pnref=story

14291_1376493886008427_8194862006778621442_nCelso Lima, iniciou sua carreira como ilustrador para revistas (Veja, IstoÉ, Placar) e jornais “O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo). Em 1991, começou pesquisa e produção de estamparias para forração em batik e tinturaria para empresas como “Arte Nativa Aplicada” e “Empório Beraldin”. A partir de 2001 inicia sua produção de murais de seda estampadas em batik e adire africano. Viajando por diversos países, pesquisou processos autóctones de estamparia da África Ocidental, Índia e Indonésia. Atua como multiplicador dessas técnicas históricas de tingimento, assim como pesquisador da história do pattern em diversos momentos e culturas.

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