Profissionais



Por Manoel Fernandes 

– A fita tem que ser limpeza; chegou, fez, escondeu o bagulho. Sem treta com os home e com as ongues; depois, área; nem quero mais ouvir falar do assunto; o serviço foi bem pago, quero resultados; nem pista, nem evidência, nem corpo.
– Relax total, o cara é profissional.

. . .
– Vossa excelência deve convir que esta porcentagem sobre o contrato, depositado em paraíso fiscal, acaba revertendo para o próprio povo, já que o nosso grupo, sempre tão comprometido, tão cumpridor de promessas, tão…
– … profissional.
– Isso mesmo…

. . .
– Escreve essa porra de novo. Tu quer me foder com esta matéria, cara? A chefia lá de cima já me disse, não quer nada apoiando este pessoal deste partido de merda. Reescreve essa porra, pega pesado, vou dar manchete. Vão cair de três a cinco nas pesquisas; vou derrubar ministro; descreve umas cenas, uns episódios, uns telefonemas, umas fontes anônimas, você consegue.
– Mas eu não tenho essas anotações…
– Você consegue, faz aí, você é um grande repórter. Profissional de primeira. Depois eu pago uma cerveja; não me fode, cara!

. . .
– Doutor, quero dar uma mexida no queixo, bem leve, aqui ó. O nariz você acha que está bom? Quem sabe mais uma afinadinha, uma amiga fez. Tô achando minhas pálpebras caídas e a boca murcha, que a última aplicação não ficou boa. Será que conseguimos mais beleza? Você sabe, doutor, gosto de fazer contigo porque é um grande profissional.
– Fico lisonjeado.

. . .
– Meu filho, eu compreendo que às vezes não vamos bem nas aulas, ser adolescente é difícil, tenho consciência. Você precisa se esforçar mais. Olhe para o seu pai: só é o que é porque sempre foi o primeiro da classe. Notas ótimas. Olhe só tudo que a gente tem, carro, casas, conforto, iPad. Tudo isto só conquistei sendo um grande profissional da minha área. Você entende isso meu filho?
– Claro, pai, claro.

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