Queremos um Universo coerente



Considerações pessoais sobre a ciência do viver.

Por Rita Foelker

A ideia de uma unidade coerente por trás do funcionamento do Universo é bem antiga. No Ocidente, ela é proposta pelos gregos pré-socráticos, conhecidos como “filósofos da Natureza”. Suas teorias acerca da physis, postulam um elemento único, fundamental e eterno, que constitui todas as coisas e que denominavam arché. Para Tales de Mileto arché era a água. Para Heráclito, o fogo. Para Xenófanes, a terra. Para Anaximandro, o apeiron ( “indeterminado”). Já Pitágoras considerava o número como a unidade essencial de tudo o que existe e Demócrito dizia que eram os átomos.

Postular, porém, não é provar. É assumir como verdadeiro e ver onde isso leva.

Os cientistas contemporâneos gastaram muitas horas e atividade cerebral tentando encaixar as peças daquilo que chamamos de Teoria do Campo Unificado, segundo a qual todas as forças presentemente reconhecidas pela ciência poderiam funcionar de modo conjunto e harmônico. Ainda não conseguiram.

Essa tentativa de acomodar a dinâmica do Universo e da vida em algum esquema conceitual, algo que possamos entender, é multimilenar. Por trás dela pode estar a intuição da existência de uma divindade criadora – de Deus – ou, mesmo, a necessidade de reconhecer uma ordem suprema implicada no aparente caos da existência humana. As duas respostas são possíveis, mas assim como tantas outras, a escolha não está na ciência.

A ciência funciona com explicações e predições. A ciência oferece explicações do que acontece no mundo e, se a teoria for adequada, ela torna possível prever certos acontecimentos ainda não ocorridos. A ciência não explica existência e causas primordiais. Ela assume certas entidades como existentes, mas não prova sua existência.

As pessoas, contudo, parecem necessitar dessas respostas. Por isso, gregos como Tales e contemporâneos como Einstein procuraram por elas. Fazem-no, contudo, como seres humanos e como pensadores e, não, enquanto cientistas.

Nós também postulamos. Assumimos certas ideias como verdadeiras. Nossos mais preciosos valores. Nossas convicções acerca do invisível. Acreditamos nelas e observamos as consequências.

Mas isso não precisa ser uma adesão cega, porque também podemos ser observadores críticos, ser “científicos” em nossa vida pessoal. Isso quer dizer, é possível verificar se as ideias que aceitamos como verdadeiras fornecem explicações satisfatórias para a vida e se permitem prever eventos futuros em nosso cotidiano. Paz ou conflito, alegria ou tristeza, contentamento ou frustração, expansão ou retração,

Desse modo, com o tempo, vamos acrescentando peças ao quebra-cabeças de nossas concepções de vida, até conseguirmos ver a figura que se delineia contra o fundo das suposições. O que, grosso modo, é o que a ciência também faz.

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