RAPAZES & MOÇAS



Celso Lima

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Foi no inicio dos anos 80 que Alexander Marckand fundou sua marca de estampas.

Hoje uma referencia em pattern nos EUA: a “Alexander Henry Fabrics”, com a intenção de criar um acervo dos mais diversificados para estamparias, a exemplo da “Marimekko” finlandesa. O resultado no entanto, devido a curadoria eufórica de Marckand, é um dos mais miscelânicos grupos de padronagens para têxteis. Apostando em motivos temáticos, sua marca traz uma cooperativa de centenas de designers e estudantes colaboradores, além de resgatar padrões retrôs em domínio publico. Hoje a “Alexander Henry Fab.” é um monumento ao pattern “kitsh”, deliciosamente cafona, mas contendo também alguns tesouros.

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Um dos temas apresentados pela marca são as estampas com “rapazes” e “moças”, em situações variadas, mas sempre muito sexys. Esses trabalhos são unicos no gênero, e muito divertidos, e sua aplicação pode causar frissons em ambientes. Os padrões de “cowboys” e “cowgirls” são artes de colagens com desenhos dos anos 50 e 60, produzidos para cartões festivos e cards para o publico adulto, e no caso dos desenhos de rapazes, especialmente para o publico gay da época. As “pin-ups” são clássicas, mas muitos temas foram redesenhados por Amanda Bonffitani, uma das curadoras da grife de tecidos. 

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Recentemente, em aula sobre design de superfícies, os trabalhos renderam comentários e reações inusitadas, ou na verdade, bastante previsiveis. Quando apresentadas as estampas com os rapazes, a turma estranhou e achou “bizarras” e “engraçadas”, mas as estampas com as garotas foram consideradas “lindas”. Uma demonstração preocupante do sexismo em nossa cultura, principalmente com relação aos tabus envolvendo a figura do homem como objeto sexual, distinta da mulher, sempre em “oferta”. Essa “disponibilidade” da figura feminina exposta na mídia e disceminada em um comportamento masculino que não vê nunca a mulher como interdita, senhora de suas escolhas, mas como um objeto de lazer, é talvez um dos maiores fatores que geram a violência contra a mulher brasileira, em vários graus e escalas. Atrelado a isso temos uma figura masculina valorizada apenas pelo exercício de poder em todos os âmbitos, desde profissional, passando pelo doméstico e chegando aos lazeres, e jamais explorado como figura de apelo sexual, desejado pela sua bunda, pernas, peitos, pinto. O sexual físico é a marca da servidão feminina em um país machista e ignorante como o Brasil, que gera uma visão falseada do homem, cujos resultados trágicos são a violência contra as mulheres e a homofobia, que crescem de forma alarmente no país.

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Pois é, essa conversa toda em um curso sobre design, porque tudo se entrelaça, sem apartes ou interrupções. Achei curiosa a reação principalmente das mulheres, que foram justamente as que manifestaram uma rejeição maior pelas estampas dos rapazes, caracterizando também uma cultura reprimida, forjada por proibições e pelo aprendizado de uma falsa mitologia em torno dos valores masculinos, os unicos a serem respeitados. É preciso mudar isso, e começamos com essas estampas fabulosas da “Alexander Henry Fab.”, totalmente “camps”, deliciosamente cafonas e maliciosas. Maravilha, rapazes e moças animadissimos, que podem se tornar elementos divertidos em um ambiente livre de tabus mas cheio de vida.

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14291_1376493886008427_8194862006778621442_nCelso Lima, iniciou sua carreira como ilustrador para revistas (Veja, IstoÉ, Placar) e jornais “O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo). Em 1991, começou pesquisa e produção de estamparias para forração em batik e tinturaria para empresas como “Arte Nativa Aplicada” e “Empório Beraldin”. A partir de 2001 inicia sua produção de murais de seda estampadas em batik e adire africano. Viajando por diversos países, pesquisou processos autóctones de estamparia da África Ocidental, Índia e Indonésia. Atua como multiplicador dessas técnicas históricas de tingimento, assim como pesquisador da história do pattern em diversos momentos e culturas.

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