Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher: Sem comemorar, mas a refletir…



Marcelo Henrique

“O progresso das luzes elevou o conceito da mulher”.
Allan Kardec (Revue Spirite, Janeiro, 1866).

Lágrimas. Dores no corpo. E na alma. Humilhação. Sentimento de impotência. Raiva. Decepção, em muitos casos, em relação àqueles de quem se esperava um mínimo de respeito. Justamente, em muitos casos, os que gozavam de maior intimidade ou dividiam o mesmo teto.

É 25 de novembro, e não há nada para se comemorar. Mas é a oportunidade – não só neste dia – mas em todos os demais, para refletir.

Há quase sessenta anos, esta data ficou marcada por um crime bárbaro. Na República Dominicana um pequeno país latino-americano, reinava a ditadura de Rafael Trujilo. E lá, como em quase todos os países do continente, sobretudo nas Américas do Sul e Central, há momentos em que a democracia se esvai pelo ralo, e ditaduras, não importando a ideologia que lhes esteja por detrás, impõem violência, submissão e vilipendia-se direitos e garantias fundamentais dos indivíduos e povos. Naquele dia, três mulheres que combatiam fortemente aquele regime insano e ilegal, Pátria, Minerva e Maria Teresa, “Las Mariposas”, foram violentadas, estranguladas, tiveram seus ossos quebrados e foram atiradas no fundo de um precipício.

A barbárie repercutiu muito, nacional e internacionalmente, num quadro de grande comoção. Pouco tempo depois, o ditador foi assassinado.

Quase trinta anos se passaram e, em 1999, foi instituído o Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher, pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em alusão às “Mariposas”. A data, assim, fomenta as necessárias discussões político-sociais sobre a proteção dos direitos humanos, em especial considerando que a violência contra a mulher – quase sempre em situação de fragilidade física ou emocional – é uma das maiores causas de assassinatos de mulheres em todo o mundo.

Ao lado dos estupros, que são praticados por homens contra mulheres que não sejam suas esposas ou companheiras, não mantendo vínculo afetivo-emocional com os agressores, há os deploráveis “crimes de honra”, os quais geralmente principiam com (pequenas) agressões físicas e/ou morais, podem evoluir para estupros e assassinatos. Segundo dados das Nações Unidas, cerca de cinco mil mulheres perdem a vida em decorrência destes crimes, no mundo, por ano. E isto independe de qualquer nacionalidade, cultura, religião ou condição social, segundo as estatísticas da entidade internacional.

O Espírita, consciente de seu papel neste planeta – e na vida de encarnado – sabe que precisa se indispor e lutar, sempre, contra a violência, o desrespeito, a barbárie, a selvageria, atuando localmente como um ser desperto para as verdades espirituais, e partícipe da construção de realidades melhores, sob a regência da Lei do Progresso. Não pode, assim, ficar omisso em relação a iniciativas que busquem conferir liberdade, segurança e legitimidade aos indivíduos, para que estes possam desempenhar, como todos, a sua trajetória de experiências no mundo físico.

Indagando aos Espíritos Superiores sobre a evolutividade das leis humanas e das sociedades como agrupamentos de indivíduos (encarnados), Kardec recebeu a expressa sinalização da participação obrigatória dos seres “despertos” neste processo: “pela força mesma das coisas e pela influência das pessoas de bem que o guiam na senda do progresso” as leis humanas foram e serão reformadas (“O livro dos espíritos”, item 797). E quem são as pessoas de bem?

Os homens de bem aparecem retratados em toda a obra kardeciana, sobretudo quando há a menção às virtudes que devem ser adquiridas e cultivadas pelo ser em suas trajetórias. Mas é preciso que tais mulheres e homens deixem a timidez e fraqueza características e enfrentem o audacioso e intrigante mal (definição dos Espíritos Superiores), pois quando o quiserem “eles preponderarão” (“O livro dos espíritos”, item 932).

Kardec, em comentário ainda pontua sobre a dinâmica progressiva das sociedades e das legislações e reforça a atitude proativa na construção de uma melhor ambiência planetária: “A lei natural é imutável e a mesma para todos; a lei humana é variável e progressiva. Na infância das sociedades, só esta pôde consagrar o direito do mais forte” (“O livro dos espíritos”, item 795).

Assim, a valorosa causa deste dia 25 de novembro não é somente a da mulher, que foi agredida ou vilipendiada, que foi mutilada ou estuprada, que foi covardemente morta, mas de todas as mulheres que são espiritualmente iguais aos homens (item 817, de “O livro dos espíritos”). A causa é, então, humanitária, como humanitária ou humanista é a própria Doutrina dos Espíritos.

Observando o cotidiano dos espíritas e suas instituições, das pequenas às maiores, das locais às nacionais, vemos muitos adeptos preocupados com a “saúde espiritual”, com a “mediunidade”, com as “instruções dos espíritos”, marcadamente em mensagens que fazem, muitos, verterem lágrimas ou ficarem enlevados, em face do conteúdo ou da linguagem, ou de ambos. A projeção de um mundo espiritualmente melhor, ou a descrição de “lugares espirituais” faz com que, comumente, o espírita seja um indivíduo que busca se preparar para o pós-vida, mas que, rotineiramente, não se engaja nas grandes causas e propostas sociais da vida material (que também possui contornos espirituais), vinculando-se apenas às atividades “do centro”.

Como a proposta deste artigo é o despertamento pessoal de todos nós, devemos honestamente nos questionarmos: – Qual é a minha contribuição para um mundo menos violento? De que maneira observo e posso combater ou evitar as diferentes formas de violência que existem contra o meu semelhante, em especial as mulheres? O que posso fazer no meu entorno para conscientizar as pessoas para a luta pacífica contra a violência e para minimizar o espectro de sua incidência, nas relações próximas de mim?

Se há alguns espíritas que repetem o bordão de que o planeta irá evoluir, e se tornar um “mundo regenerado” e que, portanto, os “Espíritos” estão no controle, ou seja, nos secundam e estão atentos para as “transformações”, é preciso sempre repetir de que a vida física é responsabilidade de quem está encarnado e que o progresso cultural e social não pertence aos desencarnados. Se eles nos influenciam em nossos atos (item 459, de “O livro dos espíritos”), e se essa influência é positiva (ou pode ser, dependendo da nossa comunhão de pensamentos), devemos aproveitar as boas instruções que não se dirigem, somente, à vida espiritual (futura). É para o momento atual, para o quadrante planetário, para a vida de relações que temos no bairro onde moramos e trabalhamos, na cidade, no país e no planeta.

Quando iremos começar?

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